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Porque eu sei que uma mudança virá…
Oh,  sim, ela virá

cabra cega

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Cadê os moinhos de vento? A adrenalina esticando a corda bamba? Cadê o melhor ângulo, o perfil suave, onde andará aquela fotogenia? E o pé no chinelo torto à espera de manhãs cafeinadas? Cadê a carta aconchegada na manga? E o coelho cochilando na cartola? Cadê a cartola?

Daqui, não vejo. Só esse mormaço sem cor paralisando a iniciativa do vento, empurrando ao limbo a esteira dos recomeços. Daqui, apenas se vê a bailarina surda guiada pelos pés de algum anjo com as asas quebradas. Só os dias arrastando horas obesas que seguem, impassíveis, devorando desejos. E a nitidez da inércia capturando a linha do horizonte, onde a terra limita o céu.

Daqui, só este arremedo de texto, cabra cega, sem pé nem cabeça, tentando se escrever pelos vãos de um óculos quebrado sob estímulos sem grau. A mesma tecla e a mesma reza enquanto ainda me pergunto onde foi parar a mãe de santo que me despachava?

cota para loiras

Já tem um bom tempo que uma amiga me pede para escrever uma defesa, um manifesto que seja, reivindicando um programa de “Cota para Loiras”. O que começou em tom de brincadeira quase virou coisa séria depois do pronunciamento do presidente da República, quando atribuiu a “culpa” da crise marolinha aos loiros de olhos azuis.

Pois, de tanto minha amiga loira (natural) insistir, resolvi transformar esse tema, mais pra letra de pagode do que pra manifesto social, nessa crônica aqui.

crônica

hoje é dia!

O Borogodó das Gordinhas
Fui buscar uma paleta de homens variados para dar mais consistência à minha pseudo teoria, “entrevistando” 14 rapazes de diferentes faixas etárias e estados civis. A pergunta bedelhuda e sem rodeios “você namorou/casou ou namoraria/casaria com uma mulher gordinha?”, rendeu 14 vezes sim, sem pestanejar. Nenhum dos “entrevistados” deixou de participar, parou pra pensar ou mesmo vacilou antes de responder. E todos, sem exceção, já namoraram ou casaram com mulheres gordinhas. Leia mais

Como eu ou você, centenas: de perguntas e respostas ensaiadas pra impressionar. Precisando de todos os sins, retendo o futuro até o presente esfacelar. Como eu ou você, buscando garantias, atestados verbais, promessas em sangue, pactos irrevogáveis, centenas. De olho no seguro, de vida, saúde, pecúlio e aposentadoria precoce. Pagando apólices contra incêndios, vendavais, desastres naturais. Tudo carimbado e protocolado em cartórios emocionais, agarrado ao fio do bigode, amarrado ao juro por Deus, densonrando a palavra de honra que só privilegia os medos, justo o que não é preciso assinar. Centenas de tolos, como você ou eu, presos na seta do cupido pensando que a firmeza está no pulso e é aí mesmo que vai contra a correnteza. Rezando que tudo seja pra sempre e que não exista nada que se atreva a vacilar. Dormir embalando certezas, acordar desdenhando desafios. Represar a vida. Estagnar. Canja de galinha e dinheiro no bolso só se ocupa com quem não tem àgua na boca. Quem se arrisca, te belisca. Mais vale um pássaro na mão e ninguém voa. Centenas. Pena.

[escrito em algum dia nublado de 2006]

the end sem fim

Alguns finais cinematográficos me frustram. Com tantos recursos tecnológicos ninguém ainda teve a brilhante ideia dos filmes inacabados. Não exatamente como Corra, Lola Corra, mas uma opção clicável no DVD. Pretendo defender essa tese se um dia alguém me der ouvidos. As vantagens seriam inúmeras. A começar que ninguém mais precisaria se preocupar em contar ou não, o final do filme.

As conversas, por exemplo, seriam mais interessantes:

— que final você escolheu?
— o que eles ficam separados, e você?
— mas este é o pior final que tinha; eu escolhi o que ele vai embora mas deixa claro que volta.
— mas aí não tem graça, ou ele vai ou racha…
— mas ele iria cobrar dela o resto da vida se não fosse…
— iria cobrar do mesmo modo, se ficasse…

E a discussão estaria engatilhada para render horas a fio.

As locadoras também lucrariam com isso, sem falar no seu estado de espírito. Hoje, você está para que Romeu e Julieta morram – quem acredita na utopia do amor? Semana que vem, passarinhos verdes pousam na sua janela, o escorpião é delatado e não temos mortos ou feridos. Mais alguns dias e, quem sabe, só aquele Romeu (chatinho!) morre e dá até para enxertar outro galã fazendo final – ou o começo – feliz com a Julieta. Ou…

A ideia dos filmes inacabados realmente me encanta.

feliz páscoa!

pascoa1bem assim
Ainda bem que é assim, uma puxada de tapete aqui, um abrir de olho acolá, com a maior cara de cachorro que caiu do caminhão da mudança e, de repente, sem mais aquelas, os sorrisos brotam de outros cantos, onde você nem adubando estava. Ainda bem que tem um pedaço da família que é chocolate de páscoa fazendo o contraponto daquela outra fatia que é amarga de engolir. Ainda bem que tem abraço apertado, beijo demorado, saudade matada, vontades acesas mantendo aquecida a boa e velha paixão pra viver. E que o melhor das minhas insônias, minha vingança mais doce, é sonhar acordada, ainda bem. Ainda bem que dos mundos que conheço, tem muitos outros que posso vir a escolher pra viver. Ainda bem que das minhas entregas todas, a única que não acontece com total abandono, a única em que não me deixo levar sem resistência, é a irreversível entrega dos pontos.