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Archive for the ‘pelas gavetas’ Category

cabra cega

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Cadê os moinhos de vento? A adrenalina esticando a corda bamba? Cadê o melhor ângulo, o perfil suave, onde andará aquela fotogenia? E o pé no chinelo torto à espera de manhãs cafeinadas? Cadê a carta aconchegada na manga? E o coelho cochilando na cartola? Cadê a cartola?

Daqui, não vejo. Só esse mormaço sem cor paralisando a iniciativa do vento, empurrando ao limbo a esteira dos recomeços. Daqui, apenas se vê a bailarina surda guiada pelos pés de algum anjo com as asas quebradas. Só os dias arrastando horas obesas que seguem, impassíveis, devorando desejos. E a nitidez da inércia capturando a linha do horizonte, onde a terra limita o céu.

Daqui, só este arremedo de texto, cabra cega, sem pé nem cabeça, tentando se escrever pelos vãos de um óculos quebrado sob estímulos sem grau. A mesma tecla e a mesma reza enquanto ainda me pergunto onde foi parar a mãe de santo que me despachava?

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Como eu ou você, centenas: de perguntas e respostas ensaiadas pra impressionar. Precisando de todos os sins, retendo o futuro até o presente esfacelar. Como eu ou você, buscando garantias, atestados verbais, promessas em sangue, pactos irrevogáveis, centenas. De olho no seguro, de vida, saúde, pecúlio e aposentadoria precoce. Pagando apólices contra incêndios, vendavais, desastres naturais. Tudo carimbado e protocolado em cartórios emocionais, agarrado ao fio do bigode, amarrado ao juro por Deus, densonrando a palavra de honra que só privilegia os medos, justo o que não é preciso assinar. Centenas de tolos, como você ou eu, presos na seta do cupido pensando que a firmeza está no pulso e é aí mesmo que vai contra a correnteza. Rezando que tudo seja pra sempre e que não exista nada que se atreva a vacilar. Dormir embalando certezas, acordar desdenhando desafios. Represar a vida. Estagnar. Canja de galinha e dinheiro no bolso só se ocupa com quem não tem àgua na boca. Quem se arrisca, te belisca. Mais vale um pássaro na mão e ninguém voa. Centenas. Pena.

[escrito em algum dia nublado de 2006]

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classificados

Precisa-se: de uma mercearia oriental, uma receita saborosa, um bom cardiologista, uma sandália sem salto, uma lufada de ar puro, um beijo sem remetente, um desejo com destinatário, um livro que me envolva – outro que me absolva -, meia tonelada de ânimo, o desfecho de um dilema, o ponto final de um poema, uma palavra que comece outro e

uma saída pela direita.

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saída de emergência

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Há uma avessa em mim
que te ama pelo que é direito
e a que vive de verso,
que te ama de viés

Assim e por isso,
você vive em ambas
que em mim te amam
metendo as mãos pelos pés

.

[João Bosco, meu bem, me diz como é que eu faço pra dormir?]

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la dolce vita

Perseguir a (nossa) Fontana di Trevi — não exatamente a de Fellini mas, a de Carnevale, Elsa e Fred (recomendo!). Ou buscar aquela carta na manga, o plano C, secreto e intransferível, que provoca o sorriso de Mona Lisa — mas, que em você fica igual a cara do gato que engoliu o passarinho. A gente pode ser/fazer tudo que resolver, ouvi isso hoje. Ahá, eis o detalhe, resolver. Revolver soou melhor quando tentei soletrar. A gente muda ou apenas se recicla? Que desafio é capaz de temperar ou fatigar a vida?

Afinal — e entendi isso não sem uma pontinha de frustração –, alforriar os próprios demônios não garante a permanência dos anjos.

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epitáfio

Eis-me aqui.
Contrariada.

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trunfo

Eu não jogo.

Se é sua última aposta,
eu passo.

Se você me embaralha,
nos descarto.

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