Natália me contava a teoria do Tubarão com muito entusiasmo: “Os japoneses, como todos sabem, gostam muito de peixe cru que, às vezes, são cortados ainda vivos porque precisam ser bem frescos. Só que como a pesca é uma de suas principais atividades, começou a faltar peixe nas redondezas, o que obrigou os pescadores japoneses a irem cada vez mais longe, mar a dentro. E então repararam que devido à longa viagem de volta, os peixes quase não se mexiam, o que enrijecia a carne. Foi aí que alguém teve a idéia de colocar nos viveiros um filhote de tubarão super alimentado – assim ele não come os peixes, mas a presença dele dentro do viveiro faz os peixes de mexerem, nervosos o tempo todo – e a carne dos bichinhos fica ótima.“
Eu ouvia aquilo tudo, nem um pouco interessada nos métodos usados pela grande indústria pesqueira japonesa, mas super curiosa pra saber onde ela queria chegar. Foi então que Natália desabafou: “Fulano, meu ex, é meu tubarão! Por causa daquele traste é que eu me mexo, corro atrás, não fico parada, não. Estou sempre de olho em possibilidades, quero conhecer gente nova, sair, passear, fazer a vida ficar legal, porque voltar pra ele é como morrer de carne rija.”
Minhas gargalhadas à parte fiquei pensando nos tubarões, vários deles, em viveiros, alguns deles até segmentados nas diversas áreas da vida da gente que nos mantém em movimento. Mas, o problema, nem são os tubarões ou “o” tubarão. O que pega mesmo é manter o bicho superalimentado. E, convenhamos, superalimentar um desafeto parece fácil, mas é difícil. Haja memória pra lembrar que ele está ali, predisposição pra deixar que ele te perturbe e, paciência meu deus, muita paciência pra se ocupar das refeições do bicho todo santo dia.
Por essas e outras, que meus tubarões se foram dessa pra águas mais abundantes e profundas. Minha disposição de manter tubarões é muito rasa, sem falar que ficar dando refeições de bandeja pra um bicho desses ocupa tempo demais. Melhor ficar imóvel e esperar que o bicho passe – foi isso que me ensinaram os documentários da Discovery, pelo menos – e depois, arrumar outro jeito de me manter em movimento, porque abaixo deste tipo de adrenalina – sob as barbatanas de um tubarão, é de amargar.
Ainda assim, eu acho que tenho um tubarão, unzinho em especial, confesso. Juro que ele deve ser anoréxico, porque não fico alimentando o bicho, mas ele é duro de matar IV. Não é nenhum tubarão branco, mas é grande e ainda por cima é martelo. Não dá sossego, tá sempre batendo na área e eu desconfio que o alvo-prego seja eu. Só de desconfiar, eu me mexo. Foi por causa deste tubarão que eu aprendi a dançar conforme a música e, foi também esse tubarão-martelo que me ensinou a rebolar. O bicho é chato mas é didático.
Eu gostei (muito) da teoria da Natália e acho que ela faz bem em manter esse tubarão, pelo menos até que ela deságüe em outros oceanos, mas convém não tratar o monstro feito bichinho de estimação – como aquelas vaquinhas simpáticas que a gente coloca dentro de casa e depois não sabe o que fazer com elas – porque um desafeto, digo, um tubarão, quando a gente menos espera, de barriga cheia e tudo, faz a gente de jantar.



